domingo, 4 de outubro de 2015

Sertanejos têm renda de até R$ 4 mil produzindo frutas e carnes, mesmo com a seca

Goiaba, manga, acerola, maracujá, cajarana, caju, laranja, mamão, graviola e seriguela são produzidas em fazendas que sobrevivem mesmo com a seca que atinge o Sertão paraibano. Essa é a realidade que vem sendo colhida por agricultores de 15 propriedades do município de Cajazeiras, a 485 km de João Pessoa. As unidades fazem parte de um projeto capitaneado pelo padre Francivaldo Albuquerque, que vem levando esperança aos agricultores que, enfrentando as dificuldades da seca, conseguem uma renda mensal média de até R$ 4 mil.

Batizado de 'Fazer', o projeto funciona com a produção de frutas in natura, polpa, leite e queijo, além de carnes bovina, suína, de frango e de peixe.

As atividades começaram a ser desenvolvidas em 2006 na Fazenda Javigor, que fica na Zona Norte de Cajazeiras, e é de propriedade de familiares do padre.

“Voltei a morar na região de Cajazeiras na década de 1990 e encontrei muitas propriedades sem perspectiva nenhuma de produção. Os açudes eram assoreados e a seca castigava, deixando os agricultores em situação difícil. A fazenda estava com o meu irmão e iniciamos o projeto em 2006. A ideia partiu de um trabalho que desenvolvi em comunidades no Rio Grande do Norte e de uma experiência que tive em 2001, ao visitar Israel, onde lá eles conviviam com a seca através de técnicas de irrigação que evitava o desperdício”, disse o padre.

Técnicas

Como pioneira no projeto, a fazenda começou com a criação de vacas para a produção de leite e queijo. Posteriormente, com a aquisição de empréstimos, foram incluídos o manejo do frango e de porcos, além do peixe cultivado em tanques dentro de açudes do município.

Por conta da seca e da dificuldade de pasto e ração, as atividades voltadas ao setor de leite, queijo e carne foram diminuindo nos últimos anos.

“A seca nos traz dificuldades, há quatro anos que não chove bem. O preço do milho para alimentar frangos está muito caro e essa atividade diminuiu bastante. O setor suíno também diminuiu por conta da seca e o leite e o queijo nós concentramos a produção no período de inverno, que começa em janeiro, por conta da pastagem para o gado. O peixe nós deixamos de criar em tanques fechados e estamos pescando artesanalmente, por conta do baixo nível dos açudes”, contou padre Francivaldo.

Porém, foi com o manejo de plantas frutíferas através da técnica do gotejamento que o projeto deu os passos mais importantes. A análise do solo, a pouca incidência de animais nocivos e a boa oferta de mão de obra fez que com a fruticultura começasse a dar resultados.

De acordo com padre Francivaldo, o gotejamento tem feito com que a pouca água que existe disponível seja essencial para o crescimento das plantas e a colheita dos frutos.

“A gente faz a irrigação por gotejamento, que é uma tecnologia que economiza muita água e deixa a planta sempre verde, com algumas culturas produzindo durante todo o ano. Nossa água é captada da pouca chuva e de reservatórios que mantemos. Ela é armazenada em cacimbões e depois passamos para um tanque maior, onde ela é armazenada e utilizada para irrigação. Todas as unidades seguem esse modelo, além de possuir poços, e vão se adaptando conforme a necessidade, aprendendo a economizar água e ampliando a cadeia produtiva, gastando apenas o que é necessário”, falou o padre.

Atualmente, os produtores conseguem colher frutas de qualidade, que são vendidas in natura nos comércios de Cajazeiras ou transformadas, artesanalmente, em polpa para serem comercializadas na região.

O pensamento, mesmo com a continuidade da seca e a crise econômica, é de crescimento da produção e aquisição de uma máquina de beneficiamento.

“O solo é bom, as frutas são boas, não temos pragas e isso dá uma segurança maior para que possamos investir mais. Hoje, produzimos o caju e a laranja em pequena escala, mas a perspectiva é de aumentar o plantio para o ano que vem. Estamos à espera do resultado de uma parceria com o projeto Cooperar (do governo do Estado) para a aquisição de uma máquina de beneficiamento de polpa de frutas, para que possamos aumentar nossa produção de polpa e conseguir abastecer todo o mercado local, já que os produtos estão vindo de fora”, falou padre Francivaldo.

Emprego e renda

No total, o projeto atende cerca de 30 agricultores, gerando, uma média de 80 empregos diretos e indiretos, somados os trabalhadores responsáveis pelo plantio e colheita com os vendedores dos produtos.

Como renda, segundo o padre, as famílias conseguem lucrar em volta de R$ 1 mil por cada pessoa. “Como nosso trabalho envolve as famílias temos casos de família recebendo cerca de R$ 3 mil ou R$ 4 mil por mês. É um dinheiro que dá para sobreviver, para ter sua terra, ter dignidade”, afirmou o padre.

Acompanhamento e dificuldades

O projeto é acompanhado por instituições como a Emater-PB e o Sebrae, que desenvolvem palestras e capacitação para os agricultores, além de estudantes da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), da Escola Agrotécnica de Sousa, que promovem análise de solo, de qualidade dos produtos e acompanham o projeto.
Segundo Levir Menezes, consultor do Sebrae, a fazenda Javigor serve como um exemplo da possibilidade de sobreviver e produzir mesmo com a seca que atinge a região.

“Hoje, vivenciamos um dos piores momentos na nossa região para a produção. Temos que buscar alternativas, perfurar poços para produzir. O projeto Fazer tem tudo para ser um espelho para a região, que estava desestimulada para produzir. Acredito que em um futuro próximo possamos ter fazendas e sítios utilizando o modelo adotado nesse projeto, que mostra que mesmo em um cenário de seca é possível trabalhar e produzir bem com pouca água”, contou o consultor Levir Menezes.

Para padre Francivaldo, a adoção do projeto vem transformando a vida dos agricultores e levando esperança para a região.

“A seca é cruel e obriga as famílias a se afastarem dos seus entes queridos para poder buscar o sustento. Mesmo com um investimento relativamente baixo, de R$ 600 mil, conseguimos transformar um cenário de desolação em esperança para os agricultores. Estamos transformando as propriedades da região”, finalizou o padre.

Fonte Por Halan Azevedo


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